No rastro da escravidão em MS
No rastro da escravidão em MS

No rastro da escravidão em MS

Ilustração: Partida da monção, 1897/Almeida Junior/Imagem da capa

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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS

12/7/2008 · 216 · 9
 

Escritora lança o provocante “Cativos nas Terras Pantaneiras” sobre a escravatura até então ‘invisível’ no Sul do Mato Grosso

O negro foi fundamental para a construção do que hoje é chamado Mato Grosso do Sul. Mas os historiadores tradicionais do Estado não cansam de ressaltar somente as qualidades dos desbravadores (brancos) que chegaram na região para formarem heróicamente as primeiras fazendas do Sul de Mato Grosso. Muito se fala em caldeirão de povos em MS, embora o negro nunca seja lembrado – sempre são os japoneses, paraguaios, libaneses, gaúchos, mineiros… 

O livro “Cativos nas Terras do Pantanal” prova que o verdadeiro impulso para transformar os rincões desabitados e desconhecidos dos brasileiros – até final do século XIX – na tal “Canaã do Oeste” – título do ufanista livro de Melo e Silva – veio do suor, do sangue e das lágrimas dos escravos. A autora Zilda Alves de Moura mergulhou durante três anos em sua tese para o mestrado de História da Universidade de Passo Fundo (UPF) para escrever o livro que faz parte da coleção Malungo – que se dedicada exclusivamente a temas ligados à escravidão e é coordenada pelo professor Mário Maestri, que foi o orientador de Zilda no projeto.

Um dos pontos mais importantes do livro é a relação que Zilda estabeleceu com o movimento das Monções, no século XVIII, e a vinda de escravos para o Sul de Mato Grosso. Foi neste período que a chegada dos negros se tornou maior por aqui. Mas é bom ressaltar que o elemento escravo apareceu no Sul de Mato Grosso logo na primeira expedição do espanhol Cabeza de Vaca para esta região – a viagem que subiu o Rio da Prata começou em 1540, dois anos depois descobriu as cataratas do Iguaçu, cruzou o Pantanal e chegou a Assunção, cidade que incendiou em 1543, o que me faz o apelidar de “Nero paraguaio”. 

A vinda dos negros continuou com os Bandeirantes em 1600, engrossou com as comitivas que realizam a rota das Monções em 1700 e se tornou um negócio para as regiões que cresceram com a chegada dos fazendeiros (os desbravadores oficiais!) de Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e de vários outros Estados que se estabeleceram nestas cercanias a partir de 1800. “A Zilda mostra no livro o mundo do trabalho, o cativo do pé da pirâmide social. O trabalhador escravizado que não saiu no retrato oficial da família sul-mato-grossense. O negro organizou a festa e não saiu na foto“, provoca o professor Mário Maestri.

No livro, Zilda faz uma lista, por exemplo, dos fazendeiros e comerciantes que mantinham escravos em suas propriedades/negócios. Muitos deles são considerados heróis, como é o caso do Barão de Vila Maria (ou Joaquim José Gomes da Silva), que teve muitas fazendas na deslumbrante região hoje conhecida como Nhecolândia. A escritora ressalta que estes “impérios” tiveram a mão de obra escrava como força-motriz e que a relação entre patrões e escravos era tão cruel como nos outros estados brasileiros. “Muitos historiadores de MS dizem que a escravidão aqui foi amena. Mas não é verdade“, enfatiza.

Para realizar a pesquisa, Zilda foi para Portugal, além de freqüentar os arquivos públicos de várias cidades brasileiras. O período pesquisado por ela foi entre 1726 e 1888, quando a Princesa Isabel assinou a comentada Lei Áurea. 

A escritora de 40 anos nasceu em Glória de Dourados, região sul-mato-grossense conhecida pelo grande número de nordestinos. Tanto que ela é de família proveniente do sertão de Unha de Gato, no Ceará, descendente de africanos, nativos e portugueses. Zilda é formada na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e mestra em História pela UPF. Atualmente ela faz uma disciplina no Doutorado de História da Universidade Federal do Paraná sob a orientação do professor doutor Carlos Lima.

Confira abaixo a entrevista com Zilda:

Rodrigo – Por que você decidiu escrever sobre a escravidão no Sul de Mato Grosso?
Zilda – Desde a graduação, comecei a estudar mais a história do MS e percebi que estes livros não traziam a história da escravidão negra no Sul de Mato Grosso. Eram só artigos, mais a região do MT que foi mais estudada e tinha mais obras. Enquanto no Sul do Mato Grosso os livros não traziam nada. Era como se não existisse a escravidão negra no Sul de Mato Grosso. Obras como da professora Maria do Carmo Brasil (este livro chama-se Fronteira Negra – Dominação, Violência e Resistência Escrava em Mato Grosso – 1718/1888), saiu em 2002 (também pela Coleção Malungo/UPF) e eu não tive acesso. E ela conta a história da escravidão negra no Mato Grosso e cita acontecimentos no Sul. Foi esta carência que me levou a querer mergulhar neste assunto. Pesquisei entre 2004 e 2007.

Por que começar pelo ano de 1726? 
É quando veio o governador de São Paulo e passou pelas terras do sul de Mato Grosso. Para chegar até as minas de Cuiabá tinha que passar por estas terras do Sul. E passando perto de Coxim, região de Camapuã e Taquari ele já fala que tinha sertanejo vivendo, mesmo empobrecidamente, e cultivando suas roças com um, dois ou três escravos. Eu começo deste ponto. Mas anteriormente eu acredito que já tinham escravos nesta região. 

Um dos pontos altos do livro é o fato de você relacionar a vinda de negros durante o período das Monções. Fale um pouco disso. 
Os Bandeirantes quando vinham para esta região em 1600 e poucos, eles vinham em busca dos nativos (os índios) para ser escravizados em São Paulo, principalmente na agricultura. Mesmo neste período se tem notícia de alguns africanos que vinham juntos ajudarem no trabalho. Eram poucos. Mas em relação aos monçoeiros, como o Buarque de Holanda diz, já é um movimento mais comercial. Muitas pessoas ficam sabendo das minas de ouro de Cuiabá e se deslocam por esta região pantaneira trazendo muita coisa, como mantimentos, coisas necessárias para esta região que se formava. Era muita coisa, caixas e caixas de mantimentos, cobertores… E quem trazia tudo isso eram os monçoeiros e quem fazia este trabalho todo na rota eram os africanos escravizados. Inclusive, eles eram os remeiros. Imagine você descer o Rio Pardo abaixo e depois o Rio Paraguaiacima neste movimento. Muitos faleciam nestas viagens. De Rio Pardo até Coxim tem o varador de Camapuã que tem a extensão de 14 km.

Existem relatos destas viagens citando os negros?
O próprio Rolim de Moura, que foi o primeiro governador de Mato Grosso, em 1748, ele mesmo cita de que ali, quando termina o Rio Pardo, seria preciso tantas canoas e caixas de mantimentos para passar de um rio para o outro – que eram as varações – e que deveria colocar tudo na “cabeça” dos negros e que precisava de 20 a 30 negros para fazer o trabalho. Ele até cita, “enquanto os negros fazem isso, descansai“. Eles mandavam muitas cartas para pessoas que vinham para a região. E ressaltavam: “Tomem cuidado com os negros porque na melhor oportunidade eles se metem no mato e comem os mantimentos.” Ele mesmo conta que era muita miséria na época. Então, na Fazenda Camapuã, quando ele passa por lá ele registra mais de 75 trabalhadores escravizados neste local. Que era uma região de abastecimento.

Esta fazenda é tratada de forma heróica em vários livros tidos como “oficiais”. 
Exatamente. A historiografia privilegiou alguns pioneiros, só que não dá este destaque… Na verdade, eu recontei um pouco a história dos pioneiros, dos bandeirantes, dos desbravadores dos sertões, mas mostrando que existiam outros agentes históricos, inclusive escravizados.

Quando que muda este movimento para o Sul de Mato Grosso e começa a vir outro tipo além dos envolvidos com as monções? 
No século XIX, depois de 1834, começa o deslocamento dos tais pioneiros da região, considerados mitos, que são de Cuiabá. Muitas daquelas pessoas que tinham fazenda lá, desceram para o Sul do Pantanal. E os documentos registram que quando eles foram tomando as terras dos nativos, já vieram de Cuiabá com os escravos. E a relação é intrincada e difícil. Porque o escravizador precisa do escravizado em todo o momento e, no entanto, teme, porque ele o trata com violência.

A escravidão no Sul de Mato Grosso neste período era parecida com o restante do país em termos de intensidade? 
A relação não era amena e nem afetiva. A gente escuta aqui que “no Mato Grosso do Sul a escravidão não era dura como no Rio ou Bahia“. O próprio governador Rolim de Moura escreve: “No fim da tarde, os negros são metidos dentro da senzala e ficam abaixo de cadeado“. E têm casos como do Firmino, que era um grande fazendeiro da região, que depois de deixar de castigo dez negros abaixo de grilhões e passando fome, no mesmo dia que liberou, ele reuniu os dez e matou. Não só matou a família inteira, como levaram as escravinhas. Então, dá-se a impressão quando a gente escuta algumas pessoas falando aqui, inclusive pesquisadores conhecidos, que a relação era afetiva. Mas, a verdade, é que era de escravizador e escravizado.

O valor do homem pantaneiro, a sua bravura e conhecimentos ancestrais são citados geralmente nos livros da história de MS. Por que esta contribuição do negro para o desenvolvimento da região não é lembrada? 
Eu não sei. Lendo a historiografia sul-mato-grossense, chegam até próximo. Tipo “veio fulano e cicrano com seus escravos” e ponto. E aí vai contar como ele cresceu e acumulou gado. Por exemplo. O Barão de Vila Maria, que é um mito em MS. São diversas fazendas que este “cara” se apossou. Imagina quantos trabalhadores escravizados ele teve? Em nenhum momento alguém chama a atenção para o fato que a água ardente que se produziu ali, a mandioca que se plantou, os escravos que ele enviou para a guerra contra o Paraguai… Estas informações não aparecem. Somente, a “grandeza” do Barão de Vila Maria. Do que ele fez para o desenvolvimento do Mato Grosso do Sul a custa da mão de obra escravizada.

Mas no próprio livro você afirma que o uso da mão de obra escrava não era regalia dos latifundiários. Esta utilização teria ocorrido desde os fazendeiros maiores até os sitiantes? 
Sim. Eu queria deixar registrado que este meu trabalho não é para criticar ou ser contrário aos pioneiros e os mitos desta região que também ajudaram a construir o Mato Grosso do Sul. Só que eu quero dar destaque para outros agentes históricos que foram esquecidos. Eu só quero contribuir com a historiografia do Mato Grosso do Sul. Esta história a gente reconta não é partir de um escravo que escreveu, mas dos representantes do poder local. Dom Rolim de Moura tem pilhas de livros e é considerado “o cara”, o máximo. Ele foi o primeiro governador de Mato Grosso. E é ele que escreve o seguinte: “As margens do Coxim tinha um sertanejo trabalhando na rede e o seu escravo tocando a rocinha“. É ele que conta esta história para que eu possa recontar.

E por que esta história não chega à Academia, digamos assim? 
É uma questão de opção. Cada um faz o seu recorte. A historiografia brasileira está cheia de histórias contando os grandes vultos. Eu até coloco uma pergunta inicial no trabalho que é quem teria o interesse de contar a história de um povo escravizado e negro? A raiz do preconceito está ali e permanece até hoje. A discriminação também. Para que vai contar a história de um povo escravizado negro, se no presente a gente conhece como ele é tratado e discriminado e se tenta esconder porque tem esta diferença social. Então, é questão de interesses.

Quem são os personagens desta história. O máximo que o campo-grandense conhece, e pouco, é a Tia Eva. Você encontrou outros que se destacaram? 
Durante a pesquisa para o livro são raríssimos os momentos que citam o nome de um escravo. É apenas escravo. Nem isso eles tiveram direito à história. Ao nome. É escravo de fulano e cicrano. E às vezes era chamado pelo nome do dono mesmo, para simplificar. A história da Tia Eva não consegui alcançar, porque era muita informação. Eu não trabalhei a escravidão em Campo Grande ainda. Eu tenho a impressão que a Tia Eva chegou depois de 1888 por aqui e a minha pesquisa vai até este ano da alforria geral.

É correto pensar que os primeiros negros que vieram para o Sul do Mato Grosso tenham sido da desbravadora turma do espanhol Cabeza de Vaca, em 1540? 
Sim. Eu faço uma introdução no livro e falo que já vinha com os espanhóis, mas com mão de obra menor, por causa da grande oferta indígena.

Qual eram as regiões que mais tinham escravos no Sul de Mato Grosso? 
Pela pesquisa, Corumbá e Santana do Paranaíba foram às regiões que eu consegui comprovar que havia mais trabalhadores escravizados. Mas foram documentos que eu consegui registro. E houveram muitos outros trabalhadores escravizados que não foram registrados porque eles tinham que pagar uma taxa na alfândega para registrar os trabalhadores. Na época, tinha uma Junta Classificatória dos Escravos. São atas e atas dizendo que “fulano de tal não registrou seus escravos“. Porque Portugal estava tentando cuidar um pouco disso.

Como você chegou nestes documentos. Como foi o caminho desta pesquisa e como está o estado de conservação nos diferentes lugares que você passou? 
Nos três anos que pesquisei comecei como leiga praticamente. Porque saí da graduação em 2002 e já saí para fazer o mestrado depois que o professor Mário veio dar uma palestra em Campo Grande. E a orientação foi ver os arquivos públicos. Fui ao Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional. O arquivo público em Cuiabá está em ótimo estado. Ali pode se escrever toda a história porque se encontra os documentos. Aqui fui ao Tribunal de Justiça. As pessoas não sabem que podem usufruir deste arquivo do Tribunal. Os documentos estão legais para trabalhar. Agora, no Fórum Criminal de Corumbá foram dias de sofrimento. Os documentos estão largados em um galpão e estão apodrecidos. Não é só a história dos negros, mas toda a história deste período! Estão jogadas em caixas de plásticos e chove. Os documentos estão com cupim e poeira. Agora eu não sei, mas a situação era esta.

Qual o documento mais importante que você encontrou? 
O mais marcante encontrei na Biblioteca Nacional de Lisboa, ainda no período do conselho ultramarino e que eles fazem um recenseamento da realidade de Mato Grosso do Sul. E ali eles citam que as mães escravas preferiam matar os filhos para eles não viverem a mesma vida que elas. 

* Publicado no O Estado de MS

 

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